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A vida não teria graça sem essas lentes coloridas. Pobre daquele que é monocromático. Prepare-se para embarcar em ilusões. Com foco ou sem foco, seja bem vindo! Luz, câmera, ação!

Uma despedida


Seu pai era de poucas palavras. Ela sempre se irritou com pessoas que não falavam, mas com ele, era diferente, ela não sentia raiva, nem um pinguinho dela. O sentimento era transbordantemente de orgulho, um brilho transcedental que percorria as almas de pai e filha. O pai sabia falar e por isso falava tão pouco. Falava nos momentos certos. As mais duras verdades eram ditas de forma tão sublime e serena que ela escutava tudo quietinha, sempre ciente de seus erros quando os cometia. Ela chorava. Chorava durante essas conversas. Não derrubava lágrimas por levar bronca, mesmo porque seu pai não brigava, chorava por admiração. Rendia seu choro à mais sincera admiração. Como ele consegue? Ela se perguntava para si mesma. Como ele consegue dizer coisas tão bonitas mesmo estando chateado comigo? Sua mente sussurrava...Isso era amor. Amor que só um pai pode ter por uma filha. Ele estava partindo agora... Ela chorava mais uma vez. Chorava de admiração, que vinha acompanhada de uma amiga agridoce: a saudade.

Metamorfose


Finalmente ela chegava a alguma conclusão. E sua conclusão não tinha aquela forma quadrada e sólida de tantas outras, essa era diferente. Essa sofria alterações e se camuflava, adaptando-se aos novos rumos. Ela finalmente entendia que não tinha que entender! E não entender não era abrir mão da vida, era simplesmente infiltrar-se onde desejava sem preocupações excessivas. Ela percebeu que não precisava de explicações pra tudo, o ar, a energia falavam por si só.
Sob o efeito de um êxtase delirante ela dicidiu ser como a água: mudaria sua forma e estado conforme a situação, se adaptaria à todos os ambientes e tentaria manter-se no estado mais limpo, puro e cristalino. Por que? Não tinham mais porques... Ela só queria, e o querer já bastava. Ela não entendia e nem queria... Estava pura e leve igual a água que caia sob seu rosto.
...
"As pessoas grandes adoram os números. Quando a gente lhes fala de um novo amigo, elas jamais se informam do essencial. Não perguntam nunca: "Qual é o som da sua voz? Quais os brinquedos que prefere? Será que coleciona borboletas?" Mas perguntam: "Qual é sua idade? Quantos irmãos ele tem? Quanto pesa? Quanto ganha seu pai?" Somente então é que elas julgam conhecê-lo. Se dizemos às pessoas grandes: "Vi uma bela casa de tijolos cor-de-rosa, gerânios na janela, pombas no telhado..." elas não conseguem, de modo nenhum, fazer uma idéia da casa. É preciso dizer-lhes: "Vi uma casa de seiscentos contos". Então elas exclamam: "Que beleza!"".

Antoine de Saint-Exupéry
O Pequeno Príncipe (1943)

O beijo


Gustav Klimt - O beijo
Ao contrário do que muitos dizem a respeito dessa obra de Klimt, não vejo sexualidade, mas sim poesia. É a fusão de dois corpos num beijo singelo.

Casamento entre o céu e a terra

"Hoje nos encontramos numa fase nova na humanidade. Todos estamos regressando à Casa Comum, à Terra: os povos, as sociedades, as culturas e as religiões. Todos trocamos experiências e valores. Todos nos enriquecemos e nos completamos mutuamente. (...)
(...) Vamos rir, chorar e aprender. Aprender especialmente como casar Céu e Terra, vale dizer, como combinar o cotidiano com o surpreendente, a imanência opaca dos dias com a transcendência radiosa do espírito, a vida na plena liberdade com a morte simbolizada como um unir-se com os ancestrais, a felicidade discreta nesse mundo com a grande promessa na eternidade. E, ao final, teremos descoberto mil razões para viver mais e melhor, todos juntos, como uma grande família, na mesma Aldeia Comum, generosa e bela, o planeta Terra."

Leonardo Boff
Casamento entre o céu e a terra. Salamandra, Rio de Janeiro, 2001.pg09

Uma pintura


Chovia. Percebendo o barulho gostoso dos pingos na janela do seu quarto ela desceu correndo as escadas e foi para a sala. Apoiou seus joelhos no assento e debruçou-se sob a ampla janela que iluminava o ambiente. Gostava de ver a chuva, não tinha medo dos raios nem dos trovões, eles a encorajavam, enchiam seu peito com a ânsia de viver. Como podia tanta água assim? Ela pensava consigo. Que imensidão! E seus pensamentos não a deixavam em paz. Os pingos caiam e suas idéias acompanhavam o ritmo da água. Tudo era tão vasto, tão sem fim e ela não entendia mais nada. Procurava tantas razões e tantos porques, sem perceber que às vezes nenhum porquê é suficiente. Por que a necessidade de entender tudo? O incerto a incomodava e ela simplesmente não sabia lidar com o amargo das dúvidas e incertezas. Que pena, já que quase tudo é incerto. A chuva estava mais forte e o céu, cinza chumbo: era a composição de uma pintura triste. A moldura? Uma janela. A pintora? A menina. Um quadro de turbilhões de sentimentos pintado pelos pensamentos de uma menina. Uma menina que queria entender, mas não entendia. Ela sentia, e sem que soubesse, isso já era o suficiente.
 
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